Filtrar por

AUTORES.club [Loja dos Autores]

Jorge Esteves

Um dia chegou à estação do Outono; talvez por isso só os avós esteves à espera dele. Nasceu contente todas as manhãs até descobrir que o mundo era injusto antes de se criar a Justiça e que todos os idiotas têm o condão divino de serem idiotas. Estupofóbico, tornou-se andadeiro e foi aprender para rimador. Com a fome, meteu-se em assados, chateou o Camões, foi ao teatro ver a ópera ‘Giroflé Giroflá’, espreitou pela fechadura e viu a Alice. Depois, andou na Lua. Agora, bastas vezes passeia pelas ruas desertas, enquanto passa os dedos do pensamento pelos cabelos das ideias. Há dias em que se senta a ler o livro infindável que o mar vai virando displicentemente, página a página, sobre a areia. Guardou no baú o arco, a gancheta, o pião, a faniqueira, os berlindes, os cromos de jogadores, uma boina à Guevara, duas garrafas de pirolitos e uma lata de graxa ‘Rosete’, mais uma vasta literatura de ‘mosquitos’ do Cisco Kid, do Mandrake, do Fantasma e do Cavaleiro Andante. Também lá tem os 45 rotações do Zeca, do Adriano, da Baez e do Hendrix. Na tampa do baú, ainda se conseguem perceber algumas letras do ‘make love not war’ escrito naquele tempo em que o sonho era um pássaro azul no alto de cada madrugada. Leu Marx e Kerouac, mas perde-se com o Junqueiro e com o Camilo. Gosta de contar histórias com começo, medo e sim, sempre com os pés no ar; por isso, às vezes, é uma folha em branco, outras vezes um caderno todo escrito. Não tem pachorra para as caras que não dizem com a careta, vai sempre a jogo se o trunfo for bacalhau e o ás for tinto de Trás-os-Montes, porque acha a vida demasiado curta para se beber vinho rasca. Impuseram-lhe ser Sagitário e ele desconfia que foi por vir a gostar do filme ‘O homem a quem chamaram cavalo’ e achar que é falta de imaginação dizer que o prato preferido é bife com ovo a cavalo. Pira-se do prazo, sofre só por acaso e marca compromissos para depois da chuva. Já foi novo, naquela época em que o presunto, os ovos, a aguardente e o sol faziam bem. Foi magro e fumador: hoje gosta mais de tremoços e de conversar encostado ao fim da tarde. Agora só ouve o que quer e diz que lhe dói um ombro. Não é velho, mas está a aprender a encher as rugas com inteligência. Conta que na sua balança ainda pesam mais os sonhos do que as saudades. Vive a aventura de regressar ao sítio de onde nunca partiu. Acha graça à frase ‘não confirmo nem desminto’, quer morar numa casa com águas furtadas ao mar e tem um pressentimento de que há-de viver sempre com uma dúvida: os homens são iguais a quem?
Diz que gostaria que alguém, um dia, escrevesse o seu nome, vírgula, de Viana.

Jorge Esteves

Existe um produto.

Mostrando 1-1 de um total de 1 artigo(s)

Filtros ativos